top of page

PELÉ NO TRONO E MESSI DE JOELHOS: A PROVOCAÇÃO QUE A HISTÓRIA AINDA SUSTENTA

  • Foto do escritor: Vinícius Brandão
    Vinícius Brandão
  • 20 de jun.
  • 5 min de leitura

A montagem é humorística, porém parte de um fato incontestável: 56 anos depois do tricampeonato de 1970, Pelé continua sendo o único jogador que conquistou três Copas do Mundo

A imagem de Lionel Messi ajoelhado diante de Pelé obviamente não retrata uma cena verdadeira. É uma montagem satírica, uma provocação típica da rivalidade entre brasileiros e argentinos e, principalmente, uma representação visual de uma discussão que parece não ter fim: quem foi o maior jogador da história do futebol?

Messi é um gênio. Negar isso seria tão irracional quanto tentar apagar Maradona, Cristiano Ronaldo, Ronaldo Fenômeno ou qualquer outro jogador que tenha marcado sua época. O argentino conquistou a Copa do Mundo de 2022, acumulou atuações extraordinárias e construiu uma carreira que o coloca entre os maiores de todos os tempos. Neste ponto, não existe debate sério que possa tratá-lo como um jogador comum. O problema começa quando a admiração pelo argentino exige diminuir Pelé ou fingir que o futebol mundial começou depois da criação da internet.

Pelé disputou quatro Copas do Mundo: 1958, 1962, 1966 e 1970. Saiu campeão em três delas e permanece como o único jogador da história com três títulos mundiais. Não é slogan inventado por brasileiro ressentido, não é estatística de página humorística e não depende de interpretação: é um recorde reconhecido oficialmente pela FIFA.

Em 1958, Pelé tinha apenas 17 anos. Não foi levado à Suécia para tirar fotografia ou completar delegação. Marcou nas quartas de final, fez três gols na semifinal contra a França e outros dois na decisão diante da Suécia. Tornou-se o jogador mais jovem a conquistar uma Copa e também o mais jovem a marcar em uma final de Mundial. Aquele adolescente não chegou ao trono por campanha publicitária: entrou em campo e resolveu uma Copa do Mundo.

Em 1962, existe uma ressalva que precisa ser explicada com honestidade. Pelé participou das duas primeiras partidas, marcou e deu assistência contra o México, porém sofreu uma lesão diante da Tchecoslováquia e ficou fora do restante da competição. Garrincha assumiu o protagonismo e comandou o Brasil até o bicampeonato. Isso não retira o título de Pelé, que integrava a seleção, entrou em campo e é oficialmente campeão mundial de 1962, porém também seria incorreto dizer que ele conduziu sozinho aquela campanha. A grandeza de Pelé não precisa de exagero, porque os fatos já são suficientemente extraordinários. A própria FIFA registra que ele perdeu a maior parte daquela Copa por causa da lesão.

A Copa de 1966 também derruba uma expressão que às vezes aparece nas redes sociais: “Rei invicto”. Pelé não foi invicto em Copas. Ele participou da derrota brasileira por 3 a 1 para Portugal, resultado que eliminou a seleção ainda na primeira fase. Sofreu entradas violentas, deixou o torneio machucado e chegou a se afastar temporariamente da seleção. O reinado histórico permaneceu, porém a invencibilidade esportiva não existe. Chamar Pelé de Rei é uma opinião consolidada pela história; chamá-lo de invicto é um erro factual.

Quatro anos depois, no México, Pelé voltou para encerrar a discussão de sua época. O Brasil de 1970 não venceu apenas porque possuía uma coleção de craques, embora tivesse Carlos Alberto, Gérson, Tostão, Rivellino e Jairzinho. Pelé marcou na final contra a Itália, participou diretamente de outros gols e terminou aquela Copa com seis assistências, marca registrada pela FIFA como recorde em uma única edição. O Brasil venceu a decisão por 4 a 1, conquistou o tricampeonato e transformou Pelé no primeiro — e ainda único — jogador tricampeão mundial.

É nesse ponto que a comparação com Messi precisa ser feita com alguma maturidade. O argentino teve uma carreira mais documentada, disputou campeonatos modernos, enfrentou preparação física avançada e viveu sob fiscalização permanente de câmeras, estatísticas e redes sociais. Pelé atuou em gramados ruins, com bolas mais pesadas, medicina esportiva rudimentar, viagens cansativas e uma proteção muito menor contra a violência dos marcadores. Comparar épocas como se ambos tivessem jogado o mesmo campeonato, sob as mesmas regras e condições, é intelectualmente pobre.

Também seria simplista afirmar que três Copas encerram automaticamente qualquer discussão individual. Copa do Mundo é uma conquista coletiva. Pelé contou com seleções brasileiras extraordinárias; Messi também dependeu de uma Argentina organizada para finalmente conquistar seu título. Um jogador não vence sete partidas sozinho. Entretanto, existe uma diferença entre reconhecer o caráter coletivo do troféu e tentar retirar de Pelé a participação decisiva em 1958 e 1970. Ele não estava apenas inscrito: foi protagonista em duas campanhas campeãs e participou da terceira até ser afastado por lesão.

Messi pode ser considerado o melhor de sua geração. Pode ser o maior jogador argentino, superando inclusive Maradona na opinião de milhões de torcedores. Pode acumular recordes de partidas, gols, assistências e longevidade. Nada disso apaga o fato de que Pelé chegou ao futebol mundial aos 17 anos, ganhou três das quatro Copas que disputou e construiu um recorde que nenhum outro atleta conseguiu repetir. Mesmo que Messi ainda conquiste um segundo Mundial, continuaria uma taça abaixo do brasileiro.

E existe outro detalhe histórico importante na arte: as taças. Pelé não levantou o troféu atualmente utilizado pela FIFA. Nas conquistas de 1958, 1962 e 1970, o prêmio entregue ao campeão era a Taça Jules Rimet, criada pelo escultor francês Abel Lafleur. Seu desenho mostrava Nike, a deusa grega da vitória, sustentando uma espécie de cálice, sobre uma base que recebeu detalhes em lápis-lazúli. A atual Taça da Copa do Mundo, desenhada pelo italiano Silvio Gazzaniga, somente começou a ser utilizada em 1974. Colocá-la ao lado dos títulos de Pelé seria um anacronismo.

Também não existiram três Jules Rimet diferentes. Havia uma única taça, entregue temporariamente ao país campeão. Como o Brasil se tornou, em 1970, a primeira seleção a vencer três Mundiais, ganhou o direito de ficar definitivamente com o troféu. A taça foi roubada da sede da CBF, no Rio de Janeiro, em 1983, jamais recuperada e, segundo a versão mais aceita, provavelmente derretida. Portanto, mostrar três Jules Rimet no card é uma licença artística para representar os três títulos; historicamente, uma única taça com as datas 1958, 1962 e 1970 seria a representação mais rigorosa.

A montagem de Messi ajoelhado deve ser compreendida dentro dessa linguagem: não como uma fotografia, não como tentativa de humilhar uma pessoa real, porém como uma caricatura editorial da hierarquia dos títulos. Messi merece reverência por tudo o que realizou. Pelé, entretanto, continua ocupando um lugar que ninguém alcançou. Um tem uma carreira monumental; o outro transformou o próprio nome em sinônimo de excelência.

No futebol, opiniões mudam a cada geração, algoritmos elegem novos ídolos e torcedores confundem aquilo que viram com tudo o que já existiu. Os números, porém, guardam a memória que a paixão tenta reescrever: quatro Copas disputadas, três títulos mundiais e um recorde intacto 56 anos depois.

Messi é gênio. Pelé é Rei. E Rei, até que alguém conquiste três Copas dentro de campo, continua existindo apenas um.

Imagem ilustrativa produzida como montagem satírica. A cena representada não aconteceu.

Comentários


bottom of page