MANÉ GARRINCHA EM RELAÇÃO A PELÉ: O GÊNIO QUE FOI MAIOR EM 1962, MAS NÃO MAIOR NA HISTÓRIA
- Vinícius Brandão

- 20 de jun.
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Pelé teve carreira mais completa, longeva e vencedora; Garrincha, porém, foi o principal responsável pelo título mundial conquistado pelo Brasil sem o Rei em campo
Comparar Mané Garrincha com Pelé exige abandonar dois extremos igualmente injustos. O primeiro transforma Garrincha em simples coadjuvante do Rei. O segundo tenta usar a genialidade do ponta-direita para diminuir Pelé, como se o tricampeão mundial tivesse sido carregado pelos companheiros. Nenhuma dessas versões resiste a uma apuração séria.
Pelé foi o jogador mais completo, produtivo, vencedor e influente. Garrincha foi provavelmente o jogador mais imprevisível e desconcertante que o futebol brasileiro já produziu. Pelé dominava praticamente todos os fundamentos: finalização com os dois pés, cabeceio, passe, visão de jogo, criação, velocidade, força, impulsão e capacidade de decidir. Garrincha possuía uma especialidade quase sobrenatural: recebia a bola pela direita, encarava o marcador mesmo quando todos sabiam o que faria e, ainda assim, passava por ele.
Não eram jogadores semelhantes. Pelé podia organizar, construir, assistir e marcar. Garrincha era um ponta-direita de origem, especialista no confronto individual, no desequilíbrio e na destruição dos sistemas defensivos. Um era a totalidade do futebol; o outro, a expressão mais radical do drible.
EM 1958, O BRASIL PRECISOU DOS DOIS
Pelé e Garrincha não começaram como titulares a Copa de 1958. Ambos entraram na equipe durante o torneio e permaneceram até a decisão. Na final, o Brasil derrotou a Suécia por 5 a 2. Pelé, aos 17 anos, marcou duas vezes e terminou aquela Copa com seis gols, todos anotados a partir das quartas de final. Garrincha não marcou no torneio, porém abriu o campo, desorganizou as defesas adversárias e foi fundamental para que Vavá, Pelé e os demais atacantes encontrassem espaço. A própria FIFA trata os dois talentos como pilares da primeira conquista brasileira.
É incorreto dizer que Garrincha carregou Pelé em 1958. O jovem camisa 10 marcou o gol da vitória contra o País de Gales, fez três na semifinal diante da França e outros dois na decisão. Também é injusto afirmar que Pelé venceu praticamente sozinho. Garrincha desequilibrou o lado direito, obrigou as defesas a se desorganizarem e ajudou a criar o ambiente ofensivo em que o talento de Pelé explodiu.
A conquista nasceu de uma seleção extraordinária que também tinha Didi, eleito o grande organizador daquele time, além de Vavá, Zagallo, Nilton Santos, Djalma Santos, Zito, Bellini e Gilmar. Pelé foi a grande revelação e o principal goleador brasileiro; Garrincha foi o agente do caos que transformava qualquer organização defensiva em improviso.
EM 1962, A COPA FOI DE GARRINCHA
É na Copa do Chile que a posição de Garrincha em relação a Pelé muda completamente. Pelé chegou ao Mundial como a maior estrela do Brasil, marcou e deu assistência na vitória sobre o México, porém sofreu uma lesão muscular na segunda partida, contra a Tchecoslováquia, e não voltou a jogar. Como não eram permitidas substituições durante as partidas, Pelé ainda permaneceu lesionado em campo até o fim daquele empate sem gols.
A partir dali, Garrincha assumiu o comando técnico e emocional da Seleção. Nas quartas de final, marcou duas vezes na vitória por 3 a 1 sobre a Inglaterra. Na semifinal, voltou a fazer dois gols contra o Chile e ainda participou diretamente da construção de outro. Um deles foi marcado com o pé esquerdo, considerado sua perna menos dominante, e outro de cabeça, mostrando que Garrincha não era apenas um ponta preso ao drible pela direita.
Naquele confronto com o Chile, Garrincha foi expulso nos minutos finais. Apesar disso, uma decisão disciplinar permitiu que disputasse a final contra a Tchecoslováquia. Mesmo com febre, entrou em campo, ajudou o Brasil a vencer por 3 a 1 e terminou a competição como um dos seis jogadores empatados na artilharia, todos com quatro gols. A Chuteira de Ouro ainda não existia oficialmente com esse nome, o prêmio começou a ser concedido em 1982, portanto é mais correto dizer que Garrincha terminou entre os artilheiros do torneio.
A conclusão é incontornável: Pelé é campeão mundial de 1962, porém o grande protagonista daquela conquista foi Garrincha. Pelé participou, marcou, deu assistência e fazia parte do elenco, mas disputou somente as duas primeiras partidas. Garrincha tomou para si a responsabilidade esportiva quando o melhor jogador do mundo deixou o torneio lesionado.
Isso não reduz Pelé. Pelo contrário, demonstra a dimensão daquela geração. O Brasil perdeu sua maior estrela e descobriu que possuía outro jogador capaz de dominar uma Copa do Mundo.
JUNTOS, ELES NUNCA PERDERAM
Pelé e Garrincha atuaram juntos pela Seleção Brasileira em 40 partidas. O retrospecto é impressionante: 36 vitórias, quatro empates e nenhuma derrota. Além das Copas de 1958 e 1962, a dupla conquistou a Taça Bernardo O’Higgins de 1959 e a Copa Roca de 1963.
O último jogo dos dois juntos aconteceu na estreia da Copa de 1966, quando o Brasil derrotou a Bulgária por 2 a 0. Pelé e Garrincha marcaram os gols. Na partida seguinte, sem Pelé, o Brasil perdeu por 3 a 1 para a Hungria. Essa foi a única derrota de Garrincha em toda a trajetória pela Seleção Brasileira. Pela contagem atual adotada pela CBF, ele disputou 60 partidas, com 52 vitórias, sete empates, uma derrota e 17 gols.
A invencibilidade da dupla não significa que um dependia exclusivamente do outro. Significa que o Brasil reunia simultaneamente dois jogadores capazes de alterar completamente uma partida. Um atraía a defesa pelo centro; o outro destruía a marcação pela direita. Quando o adversário fechava Pelé, abria espaço para Garrincha. Quando tentava dobrar a marcação sobre Garrincha, deixava Pelé circular por zonas decisivas.
NOS CLUBES, A VANTAGEM DE PELÉ É AMPLA
É fora da Seleção que a diferença histórica se torna mais evidente. Garrincha foi o grande símbolo do Botafogo, pelo qual disputou 612 partidas. Conquistou três Campeonatos Cariocas, em 1957, 1961 e 1962, além de três Torneios Rio–São Paulo, em 1962, 1964 e 1966. Foram conquistas relevantes numa época em que os estaduais tinham enorme importância esportiva.
Pelé, entretanto, comandou o Santos numa escala esportiva e internacional muito maior. Durante aproximadamente 18 anos, liderou o clube em seis títulos brasileiros, duas Libertadores, dois Mundiais Intercontinentais e uma longa sequência de conquistas estaduais e internacionais. A FIFA atribui ao Santos de Pelé cerca de 24 ou 25 grandes títulos, dependendo do critério usado para classificar as competições.
Nos confrontos diretos entre o Santos de Pelé e o Botafogo de Garrincha considerados pela FIFA, as equipes se enfrentaram 11 vezes: Pelé venceu sete partidas, Garrincha ganhou três e houve um empate. Esse recorte não resolve sozinho uma comparação individual, porém reforça a superioridade esportiva alcançada pelo Santos naquele período.
Pelé também construiu números muito superiores na Seleção. A FIFA registra 77 gols em 92 partidas, além de 12 gols em 14 jogos de Copa do Mundo. Em 1970, já sem Garrincha, marcou quatro vezes, distribuiu seis assistências, recorde para uma única edição, e liderou o Brasil até o tricampeonato.
Esse terceiro título é decisivo na comparação. Pelé venceu em 1958 ao lado de Garrincha, integrou a campanha de 1962 que Garrincha protagonizou e voltou ao topo em 1970, quando o antigo companheiro já não fazia parte da Seleção. Tornou-se o único jogador tricampeão mundial e demonstrou capacidade de permanecer decisivo em equipes, funções e momentos diferentes.
QUEM FOI MAIOR?
Em talento específico para o drible e para o confronto individual, Garrincha pode ser considerado superior. Poucos jogadores provocaram tanta desordem com movimentos aparentemente simples. Ele esperava o defensor, permitia que o marcador se reorganizasse e o driblava novamente, quase como se o objetivo não fosse apenas avançar, mas desmontar psicologicamente o adversário.
Em 1962, Garrincha foi maior que Pelé porque Pelé estava lesionado e ele assumiu a Copa. Nesse torneio específico, não existe discussão séria: Mané foi o principal jogador do Brasil.
Na carreira completa, porém, Pelé está acima. Foi mais versátil, mais goleador, mais longevo, conquistou mais títulos, teve maior impacto internacional, dominou o futebol de clubes e ainda voltou a vencer uma Copa oito anos depois da consagração de Garrincha no Chile. A distância não diminui Mané; apenas reconhece a dimensão quase inalcançável da trajetória de Pelé.
A formulação historicamente mais justa é esta:
Garrincha não foi carregado por Pelé e Pelé não foi carregado por Garrincha. Em 1958, conquistaram juntos. Em 1962, Garrincha assumiu o lugar de protagonista deixado pela lesão do Rei. Em 1970, Pelé provou que seu reinado não dependia da presença de Mané.
Pelé foi o maior jogador brasileiro da história. Garrincha foi o jogador brasileiro mais singular. Um virou Rei; o outro, Alegria do Povo. A tentativa de diminuir qualquer um deles para exaltar o outro não melhora a história: apenas empobrece a maior dupla que a Seleção Brasileira já colocou dentro de um campo.



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