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A ARGENTINA QUE EU ADMIRO E A SELEÇÃO PELA QUAL NÃO TORÇO

  • Foto do escritor: Vinícius Brandão
    Vinícius Brandão
  • 20 de jun.
  • 8 min de leitura

Atualizado: há 5 horas

Capa da editoria Esporte de Vinícius Brandão
A ARGENTINA QUE EU ADMIRO E A SELEÇÃO PELA QUAL NÃO TORÇO — imagem principal da matéria de Vinícius Brandão

O país merece respeito por seu povo, sua cultura e pelo esforço de reconstrução econômica conduzido por Javier Milei, mas sua seleção carrega um histórico de provocações, agressões, racismo e episódios incompatíveis com o espírito esportivo

Eu gosto da Argentina. Gosto do povo argentino, de sua cultura, de sua gastronomia e da maneira apaixonada como aquele país vive suas tradições. Torço sinceramente para que sua economia se recupere, que sua população volte a prosperar e que a política de reorganização conduzida por Javier Milei consiga romper definitivamente com décadas de inflação, déficit público, descontrole monetário e empobrecimento.

Também gosto de receber argentinos no Brasil. Quem trabalha com turismo, especialmente na Bahia, sabe da presença, da alegria e da disposição que muitos deles demonstram para conhecer nosso litoral, nossas praias, nossa comida e nossa maneira de viver. Os argentinos não apenas dizem que gostam do Brasil: no primeiro trimestre de 2026, foram responsáveis por mais de 1,64 milhão de chegadas internacionais ao país, liderando com ampla vantagem o ranking de visitantes estrangeiros.

São viajantes que movimentam hotéis, restaurantes, receptivos, companhias aéreas, lojas e toda uma cadeia de pequenos negócios. Em Porto Seguro, Arraial d’Ajuda, Trancoso, Salvador, Florianópolis, Rio de Janeiro ou qualquer outro grande destino brasileiro, é comum encontrá-los circulando, consumindo, elogiando as praias e tentando se comunicar em um portunhol que, muitas vezes, funciona melhor do que qualquer curso de idiomas.

A Argentina tem ainda uma identidade cultural extraordinária. Tem a tradição dos vinhos de Mendoza, o Malbec, as bodegas, as massas herdadas da imigração italiana, as parrillas, as empanadas, o doce de leite, os cafés de Buenos Aires e uma relação quase cerimonial com a mesa. É um país de escritores, músicos, atores, intelectuais e artistas. É a terra de Jorge Luis Borges, Mercedes Sosa, Astor Piazzolla e de uma cultura que não pode ser reduzida a uma camisa de futebol.

Também reconheço os resultados obtidos pela política econômica de Javier Milei. Pode-se discutir o estilo, a comunicação, a intensidade dos ajustes e o impacto social inicial, mas não é intelectualmente honesto ignorar os indicadores. A Argentina encerrou 2025 com crescimento de 4,4% do Produto Interno Bruto, depois de uma contração de 1,3% em 2024.

O país também alcançou superávit primário federal equivalente a 1,4% do PIB em 2025, além de resultado financeiro positivo, algo raro na história econômica argentina recente. O Fundo Monetário Internacional reconheceu a continuidade da disciplina fiscal, a desaceleração inflacionária e a recuperação da atividade econômica, embora ainda aponte desafios relacionados às reservas, ao financiamento externo e à sustentabilidade das reformas.

A inflação continua alta para qualquer padrão minimamente saudável, mas caiu de níveis caóticos para uma trajetória mais administrável. Em junho de 2026, o índice mensal foi de 1,9%, acumulando 16,8% no ano e 33,5% em 12 meses. A pobreza, que havia atingido 52,9% da população no primeiro semestre de 2024, recuou para 28,2% no segundo semestre de 2025, segundo o instituto oficial de estatísticas argentino. São números que não eliminam o sofrimento enfrentado por milhões de famílias, mas demonstram que a estabilização produziu efeitos concretos.

Por isso, não tenho dificuldade alguma em desejar sucesso à Argentina. Torço para que Milei consiga modernizar o Estado, eliminar privilégios, controlar os gastos, devolver previsibilidade à moeda, atrair investimentos e melhorar a vida das pessoas. Um vizinho próspero é melhor para toda a América do Sul. Uma Argentina economicamente forte compra produtos brasileiros, envia turistas, recebe nossos empresários e ajuda a estabilizar a região.

É justamente aí que termina minha torcida.

Quando a conversa muda da Argentina real para a seleção argentina de futebol, meu sentimento também muda. Não por xenofobia, não por ódio ao país e muito menos por desprezo ao seu povo. A razão é esportiva, histórica e comportamental.

A Argentina possui três títulos mundiais, conquistados em 1978, 1986 e 2022. O Brasil possui cinco: 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. Somos a única seleção pentacampeã do mundo.

Pelé, sozinho, conquistou o mesmo número de Copas do Mundo que toda a seleção argentina em sua história: três. Foi campeão em 1958, 1962 e 1970 e permanece como o único jogador tricampeão mundial. Esse dado, isoladamente, já demonstra a diferença de dimensão histórica.

Para mim, Pelé é muito maior que Maradona e Messi. Não apenas pelas três Copas, mas pelo impacto global, pela capacidade de decidir, pela quantidade de gols, pela longevidade, pela transformação do futebol em espetáculo mundial e pelo fato de ter se tornado referência em uma época sem internet, redes sociais ou campanhas digitais construindo reputações.

O Brasil também não depende de um único nome para sustentar sua grandeza. Tivemos Garrincha, Didi, Nilton Santos, Djalma Santos, Vavá, Zagallo, Tostão, Jairzinho, Rivellino, Zico, Sócrates, Falcão, Romário, Bebeto, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Cafu, Roberto Carlos, Kaká e tantos outros. A Argentina teve gênios extraordinários, especialmente Maradona e Messi, mas o conjunto de craques produzidos pelo futebol brasileiro é mais amplo, mais vencedor e distribuído por muito mais gerações.

O problema, entretanto, não está apenas na comparação entre títulos e jogadores. Está na maneira como a seleção argentina construiu parte de sua identidade competitiva. Em diferentes épocas, criou-se uma cultura na qual provocar, pressionar a arbitragem, intimidar adversários, tumultuar partidas e buscar vantagens fora da normalidade passou a ser romantizado como “raça”.

Raça é lutar até o último minuto. Raça é correr, marcar, suportar pressão e não desistir. Agressão, racismo, simulação, provocação e trapaça não são raça. São falta de espírito esportivo.

A história oferece exemplos demais para serem tratados como simples coincidências. Na Copa de 1966, o capitão argentino Antonio Rattín foi expulso contra a Inglaterra e se recusou a deixar o campo por vários minutos, transformando a partida em uma confusão internacional. A expulsão foi controversa, e o técnico inglês Alf Ramsey também teve uma postura ofensiva ao chamar os argentinos de “animais”, mas aquele confronto ajudou a consolidar uma rivalidade marcada muito mais pela hostilidade do que pelo futebol.

Em 1978, a Argentina conquistou seu primeiro título dentro de casa, durante uma das ditaduras militares mais violentas da América Latina. A goleada por 6 a 0 sobre o Peru, resultado de que a seleção anfitriã precisava para avançar à final, continua cercada por suspeitas de favorecimento e manipulação. Nunca houve comprovação conclusiva de fraude, por isso não se pode afirmar juridicamente que o jogo tenha sido comprado, mas a combinação entre ditadura, pressão política e um placar absolutamente conveniente deixou uma sombra que atravessou as décadas.

Em 1986, Maradona marcou contra a Inglaterra o gol mais famoso feito com a mão na história das Copas. O árbitro não viu, o lance foi validado e o próprio jogador transformou a irregularidade em folclore ao chamá-la de “a mão de Deus”. Poucos minutos depois, ele marcaria um dos gols mais bonitos de todos os tempos. Um lance genial não apaga o outro: houve arte, mas também houve trapaça.

Em 1990, surgiu outro dos episódios mais graves envolvendo Brasil e Argentina. Branco afirmou que bebeu água oferecida por integrantes da comissão argentina durante as oitavas de final e, pouco depois, passou a sentir tontura e sonolência. Anos mais tarde, Maradona falou sobre o caso em tom de deboche e deu a entender que havia tranquilizante em uma das garrafas. A denúncia nunca foi oficialmente comprovada pela FIFA, mas também nunca desapareceu, especialmente porque o relato de Branco encontrou eco nas declarações do próprio capitão argentino.

Na Copa de 2006, depois da eliminação para a Alemanha nos pênaltis, jogadores argentinos participaram de uma briga generalizada. O jornal britânico The Guardian relatou que Maxi Rodríguez acertou Bastian Schweinsteiger por trás e que Leandro Cufré chutou Per Mertesacker, sendo expulso mesmo depois do encerramento da disputa. Perder nos pênaltis é cruel, mas transformar a frustração em agressão não é demonstração de grandeza.

Em 2022, contra a Holanda, assistimos a outro espetáculo de hostilidade. Houve provocações dos dois lados, declarações duras antes da partida e uma arbitragem incapaz de controlar o confronto, mas a seleção argentina respondeu com deboches, discussões, invasões de campo e uma comemoração provocativa diante dos holandeses eliminados. A Reuters registrou sucessivas confusões, 16 cartões amarelos e uma expulsão depois do apito final.

Após conquistar o título de 2022, o goleiro Emiliano Martínez levou para a comemoração um boneco com o rosto de Kylian Mbappé, adversário que havia marcado três gols na final. Em vez de celebrar apenas a própria vitória, parte da festa foi usada para humilhar um jogador derrotado. A fotografia do goleiro segurando o boneco percorreu o mundo e resumiu uma postura que muitos tentam chamar de irreverência, mas que, para mim, foi apenas falta de respeito.

Em 2024, após a conquista da Copa América, jogadores argentinos foram filmados cantando uma música racista e discriminatória contra atletas franceses de origem africana. A Federação Francesa denunciou o episódio, a FIFA abriu investigação, o Chelsea condenou a conduta e Enzo Fernández pediu desculpas. Não existe prova de que Messi tenha participado do canto, mas, como capitão, maior jogador e principal liderança daquele grupo, poderia ter feito uma condenação pública inequívoca. Em vez disso, o fato político mais evidente foi a demissão, pelo governo argentino, do subsecretário de Esportes que havia sugerido um pedido de desculpas por parte de Messi e da Associação Argentina de Futebol.

Racismo não é provocação de arquibancada. Não é brincadeira, folclore ou rivalidade. Quando jogadores negros europeus são atacados por sua origem familiar, a questão deixa de ser esportiva e passa a ser humana. Uma seleção campeã do mundo, acompanhada por milhões de crianças, deveria compreender o peso de seu exemplo.

Na Copa de 2026, a postura voltou a aparecer. Antes mesmo da final, torcedores argentinos cantaram durante o hino inglês na semifinal, numa demonstração desnecessária de desrespeito ao símbolo do adversário.

Na decisão de 19 de julho de 2026, a Espanha venceu a Argentina por 1 a 0, com gol de Ferran Torres na prorrogação. A Argentina criou pouco, endureceu fisicamente a partida, perdeu Enzo Fernández por expulsão e terminou a competição com uma nova confusão. Depois do apito final, Leandro Paredes partiu para cima dos espanhóis durante a comemoração, atingiu adversários e ajudou a iniciar uma briga que obrigou jogadores e integrantes das comissões a intervir. Paredes ainda recebeu cartão vermelho depois do encerramento.

Foi uma péssima imagem para a América do Sul. A Argentina havia chegado à final, disputado mais uma Copa e mantido sua relevância mundial. Poderia ter saído de cabeça erguida, cumprimentado os campeões e reconhecido a derrota. Preferiu terminar com expulsões, empurrões e tumulto.

E aqui está a diferença entre admirar um país e torcer por uma seleção. Eu quero ver os argentinos viajando para o Brasil, ocupando nossos hotéis, conhecendo nossas praias e celebrando a vida. Quero ver a Argentina crescendo, controlando sua inflação e recuperando o poder de compra de sua população. Quero que o vinho argentino continue chegando às nossas mesas, que as famílias compartilhem massas, empanadas e doce de leite e que nossos povos convivam como vizinhos, parceiros e amigos.

No futebol, entretanto, não consigo torcer por uma seleção que tantas vezes transformou o desrespeito em identidade, a provocação em estratégia e a agressividade em motivo de orgulho.

A camisa argentina é pesada. Messi é um gênio. Maradona foi extraordinário. Isso não está em discussão. O que está em discussão é a tentativa de colocar os dois acima de Pelé, ignorar a superioridade histórica do Brasil e exigir respeito enquanto episódios de racismo, agressão, deboche e antijogo são relativizados.

O Brasil tem cinco Copas. A Argentina tem três. Pelé tem três. Nossa história não se resume a um homem, a uma geração ou a uma conquista. Ela atravessa décadas, estilos e times inteiros de jogadores lendários.

Torço pela Argentina que trabalha, produz, recebe turistas, cultiva vinhos, faz doce de leite, enfrenta crises e tenta reconstruir sua economia.

Pela seleção argentina de futebol, enquanto essa cultura do vale-tudo continuar sendo confundida com raça, eu não torço.

Respeito não se exige apenas quando se vence. Respeito se conquista principalmente na maneira como se compete, como se trata o adversário e como se aceita uma derrota.

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