MADONNA ENTRA NA FINAL COM RONALDO E RONALDINHO, ENQUANTO PELÉ REINA NO TELÃO
- Vinícius Brandão

- 20 de jun.
- 4 min de leitura
Em uma das cenas mais improváveis e simbólicas da Copa do Mundo de 2026, a rainha do pop chegou ao gramado em um veículo conduzido por Ronaldo, com Ronaldinho no banco do passageiro, enquanto o maior jogador da história era homenageado no estádio
Por alguns minutos, a final da Copa do Mundo deixou de ser apenas o confronto entre Espanha e Argentina. O espetáculo ganhou sotaque brasileiro, memória afetiva e uma combinação que dificilmente alguém conseguiria imaginar antes de vê-la acontecer: Madonna, Ronaldo Nazário e Ronaldinho Gaúcho surgindo juntos, praticamente saindo de um carro alegórico, enquanto Pelé aparecia em uma grande homenagem no telão.
A cena ocorreu neste domingo, 19 de julho, no New York New Jersey Stadium, conhecido comercialmente como MetLife Stadium, durante o primeiro show oficial de intervalo de uma final de Copa do Mundo. A FIFA decidiu levar para o futebol o formato consagrado pelo Super Bowl, transformando a pausa da partida em um espetáculo musical de alcance mundial. O resultado foi uma apresentação de aproximadamente 11 minutos, reunindo estrelas da música, referências da cultura popular e personagens históricos do futebol.
Madonna abriu o espetáculo cantando “Music”, sucesso lançado em 2000 e construído justamente sobre a ideia de que a música aproxima as pessoas. Depois de uma introdução aparentemente gravada em uma pista de patinação, a cantora entrou no estádio sobre um veículo cênico semelhante a um buggy, decorado e iluminado como uma pequena plataforma móvel de espetáculo. Ao volante estava Ronaldo Fenômeno. No banco do passageiro, sorrindo como quem havia acabado de combinar a maior travessura da Copa, aparecia Ronaldinho Gaúcho.
Não era exatamente um carro alegórico de Carnaval, porém a sensação visual era essa. Havia música, luzes, dançarinos, figurinos chamativos e três personagens mundialmente reconhecidos avançando pelo túnel em direção ao gramado. Madonna vestia rosa, cantava sobre a plataforma e comandava a entrada. Ronaldo dirigia o veículo, enquanto Ronaldinho ocupava o outro lado, com o sorriso aberto que sempre foi uma de suas marcas.
Quando o carro parou, os dois brasileiros desceram e acompanharam a cantora até o campo. No encerramento da participação, Madonna segurou as mãos de Ronaldo e Ronaldinho e as levantou diante do público, convocando o estádio para dançar. A imagem reuniu, no mesmo enquadramento, a rainha do pop e dois campeões mundiais que ajudaram a transformar o futebol brasileiro em produto cultural reconhecido em qualquer parte do planeta.
PELÉ CONTINUOU SENDO O REI
A presença brasileira não terminou com Ronaldo e Ronaldinho. Durante a apresentação, Pelé recebeu uma homenagem no telão do estádio, com sua imagem projetada diante de uma audiência global. O registro foi destacado também pela publicação da FFW que viralizou nas redes sociais após o espetáculo.
Foi uma escolha carregada de significado. Pelé permanece como o único jogador da história a conquistar três Copas do Mundo: 1958, 1962 e 1970. Sua imagem não apareceu como simples lembrança protocolar, mas como a representação máxima do futebol brasileiro. Ronaldo e Ronaldinho estavam fisicamente no gramado, porém Pelé permanecia acima deles no telão, simbolicamente ocupando o lugar que a história lhe reservou.
A homenagem também corrigiu, ainda que por alguns segundos, uma injustiça recorrente da memória esportiva contemporânea. A cada nova geração surgem comparações, rankings e tentativas de reorganizar a grandeza dos craques, mas Pelé continua sendo o único jogador que entrou em quatro Copas e saiu campeão de três. Antes da televisão globalizada, das redes sociais e do marketing esportivo bilionário, foi ele quem transformou um brasileiro negro, nascido em Três Corações, na primeira grande celebridade planetária do futebol.
O BRASIL NÃO DISPUTOU A FINAL, MAS ENTROU NELA
Dentro de campo, o Brasil não chegou à decisão. Fora dele, foi impossível realizar o maior espetáculo da Copa sem recorrer à história brasileira. A produção poderia ter escolhido atores, influenciadores ou celebridades americanas para conduzir Madonna, mas chamou Ronaldo e Ronaldinho. E, quando precisou representar a memória eterna do futebol, colocou Pelé no telão.
Essa talvez tenha sido a parte mais expressiva da apresentação. A Seleção Brasileira pode atravessar períodos ruins, acumular eliminações e perder protagonismo competitivo, mas o imaginário mundial do futebol ainda passa inevitavelmente pelo Brasil. Quando a FIFA quis unir música, festa, nostalgia, espontaneidade e reconhecimento internacional, o caminho escolhido passou pelo Fenômeno, pelo Bruxo e pelo Rei.
O espetáculo continuou com BTS, Justin Bieber, Shakira, Burna Boy, o maestro Gustavo Dudamel, personagens dos Muppets e da Vila Sésamo, além da participação de Chris Martin, vocalista do Coldplay e responsável pela curadoria artística da apresentação. Shakira interpretou com Burna Boy “Dai Dai”, a música oficial do Mundial, enquanto o encerramento reuniu artistas, músicos e um coral infantil.
Naturalmente, o formato provocou discussões. Parte do público gostou da transformação da final em um grande evento de entretenimento, enquanto outros consideraram exagerada a tentativa de aproximar a Copa do modelo comercial do Super Bowl. O debate é legítimo, mas uma coisa não se discute: a chegada de Madonna conduzida por Ronaldo e acompanhada por Ronaldinho produziu uma das imagens mais inesperadas e compartilhadas de toda a competição.
Ao final da noite, a Espanha derrotou a Argentina por 1 a 0 na prorrogação, com gol de Ferran Torres aos 106 minutos, e conquistou o segundo título mundial de sua história. A taça ficou com os espanhóis, mas uma das imagens destinadas a permanecer na memória da final teve três brasileiros como protagonistas: Ronaldo dirigindo, Ronaldinho sorrindo e Pelé reinando no telão.
O Brasil não levantou a Copa. Naquele momento, porém, entrou no estádio como somente o país do futebol poderia entrar: de carona com Madonna, conduzido por dois craques e observado, do alto, pelo único Rei.



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