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ESTAMOS ABERTOS PARA RECEBER PEDIDOS DE DESCULPAS

  • Foto do escritor: Vinícius Brandão
    Vinícius Brandão
  • há 4 dias
  • 5 min de leitura

Um pouco mais de seis anos após a descoberta da COVID, dados científicos e relatos jurídicos revelam que os chamados de “negacionistas” pela esquerda eram os que tinham razão

Durante muito tempo, bastava alguém levantar uma dúvida, pedir transparência ou questionar uma decisão para receber imediatamente um rótulo: negacionista. Não era necessário ouvir o argumento. Não era preciso analisar os documentos. Não interessava saber se a pergunta era legítima. Bastava o cidadão não repetir integralmente a narrativa considerada oficial para ser tratado como ignorante, irresponsável ou inimigo da ciência.

A palavra “negacionista” deixou de ser uma descrição e virou uma arma política. Foi utilizada para constranger, calar, humilhar e expulsar pessoas do debate público. Médicos, jornalistas, empresários, professores, trabalhadores e cidadãos comuns foram colocados no mesmo pacote, como se questionar autoridades fosse o mesmo que negar a realidade. Não é.

A ciência verdadeira não exige obediência cega. A ciência exige dúvida, comparação, revisão, teste, transparência e liberdade para contestar conclusões. Quem não aceita perguntas não está defendendo a ciência. Está defendendo um dogma com aparência científica. Sou de direita e nunca escondi isso.

Ser de direita não significa rejeitar conhecimento, desprezar pesquisadores ou negar evidências. Significa desconfiar da concentração de poder, cobrar responsabilidade das autoridades, defender a liberdade individual e exigir que decisões capazes de interferir na vida de milhões de pessoas sejam fundamentadas, proporcionais e transparentes e alguns acontecimentos posteriores provaram que determinadas perguntas eram, sim, legítimas.

Vacinas contra a Covid-19 passaram por revisões, pausas, restrições e alterações de recomendação quando apareceram sinais de segurança. A Agência Europeia de Medicamentos reconheceu que a vacina Vaxzevria, da AstraZeneca, estava associada a casos muito raros de trombose acompanhada de redução das plaquetas. Naquele momento, a agência manteve a avaliação de que os benefícios gerais superavam os riscos, porém o evento adverso existia e precisava ser informado.

Nos Estados Unidos, a aplicação da vacina da Janssen chegou a ser temporariamente pausada após registros de uma forma rara e grave de trombose. Posteriormente, sua autorização emergencial foi revogada em 1º de junho de 2023, a pedido da própria empresa, porque os lotes haviam expirado, não existia demanda por novas doses e a composição não seria atualizada para as novas variantes. Portanto, é incorreto afirmar que todas essas vacinas foram simplesmente retiradas porque eram “prejudiciais”, porém também é desonesto fingir que não existiram riscos, suspensões, restrições e mudanças de orientação.

É justamente aí que estava o direito de perguntar. Quem queria conhecer os riscos não era necessariamente antivacina. Quem defendia consentimento informado não era inimigo da medicina. Quem cobrava investigação sobre eventos adversos não estava desejando a morte de ninguém.

Reconhecer benefícios não elimina a obrigação de reconhecer riscos. Medicina séria não trabalha com santos nem demônios. Trabalha com indicação, contraindicação, risco, benefício, idade, histórico clínico e decisão individualizada.

Também é necessário fazer justiça aos médicos que, durante a pandemia, defenderam que o paciente não poderia ser simplesmente mandado para casa com a recomendação de retornar apenas quando estivesse sem ar.

Muitos desses profissionais foram chamados de irresponsáveis apenas por defenderem consulta médica precoce, acompanhamento dos sintomas, medição da saturação, investigação de fatores de risco e intervenção no momento adequado. Nesse aspecto, estavam certos.

A medicina acabou confirmando que alguns tratamentos funcionavam quando empregados na fase e no perfil corretos. O antiviral nirmatrelvir associado ao ritonavir demonstrou benefício principalmente para pacientes de maior risco quando administrado precocemente. O remdesivir também passou a integrar recomendações para determinados pacientes. A dexametasona reduziu a mortalidade entre hospitalizados que necessitavam de oxigênio ou ventilação, porém não deveria ser utilizada indiscriminadamente em casos leves.

O problema foi misturar duas discussões diferentes. Uma coisa era defender atendimento precoce e acompanhamento médico. Outra era afirmar que qualquer medicamento utilizado naquele período estava automaticamente comprovado.

A ivermectina, por exemplo, continua sendo um medicamento importante e reconhecido para o tratamento de determinadas doenças parasitárias. Isso não significa, porém, que tenha eficácia comprovada contra qualquer vírus.

Grandes ensaios clínicos realizados em diferentes países não demonstraram redução significativa de hospitalização, progressão da doença ou tempo de recuperação com ivermectina para Covid-19. O ensaio TOGETHER, realizado majoritariamente no Brasil, e os estudos ACTIV-6, publicados no New England Journal of Medicine e no JAMA, não sustentaram seu uso para essa finalidade.

Também não é correto afirmar que os presídios não tiveram focos de Covid-19 porque os detentos utilizavam ivermectina contra parasitoses. Em outubro de 2020, o Conselho Nacional de Justiça já registrava 46.215 pessoas infectadas e 205 mortes no sistema prisional brasileiro. Estudos internacionais igualmente documentaram grandes surtos em estabelecimentos penais, locais especialmente vulneráveis pela superlotação, circulação de funcionários e dificuldade de isolamento.

Pode ter havido unidades específicas com poucos casos, relatos médicos positivos ou experiências locais aparentemente bem-sucedidas. Esses relatos merecem ser estudados, porém não podem ser apresentados como prova de causalidade. Coincidência temporal, população mais jovem, subnotificação, isolamento, imunidade adquirida e diferenças no número de testes também poderiam explicar resultados distintos.

A direita não precisa negar estudos para defender a liberdade. Também não precisa transformar toda experiência isolada em verdade científica para provar que houve autoritarismo, censura, arrogância institucional e perseguição política. Os erros cometidos contra os questionadores continuam sendo erros.

Muita gente foi humilhada apenas por perguntar sobre efeitos adversos, proporcionalidade das restrições, fechamento de escolas, vacinação obrigatória, liberdade profissional, impactos econômicos e o direito do paciente de participar das decisões sobre o próprio corpo.

Profissionais foram desmoralizados antes mesmo que seus argumentos fossem examinados. Famílias foram divididas. Amizades foram destruídas. Pessoas perderam empregos e espaços de expressão. A divergência científica foi tratada como falha moral. Esse comportamento precisa ser reconhecido.

O pedido de desculpas não é devido porque todos os questionadores estavam certos sobre tudo. Ninguém estava. O pedido de desculpas é devido porque nenhuma pessoa deveria ter sido perseguida apenas por fazer perguntas legítimas, exigir transparência ou defender limites para o poder do Estado.

Errar faz parte da ciência. Revisar recomendações faz parte da ciência. Suspender um produto para investigar riscos faz parte da ciência. Descartar um tratamento que não funcionou também faz parte da ciência.

O que não faz parte da ciência é impedir perguntas, destruir reputações e transformar conclusões provisórias em mandamentos políticos. Estamos, portanto, abertos para receber pedidos de desculpas.

Não porque desejamos vingança. Não porque pretendemos substituir uma censura de esquerda por uma censura de direita e muito menos porque acreditamos que toda desconfiança se transformou em verdade. Estamos abertos porque o debate público precisa recuperar uma virtude perdida: a humildade.

A humildade de reconhecer que autoridades podem errar. Que empresas podem errar. Que médicos podem errar. Que jornalistas podem errar. Que governos de esquerda e de direita podem errar e que o cidadão tem o direito de perguntar antes de obedecer.

Talvez os pedidos de desculpas nunca cheguem. A soberba raramente pede perdão. Mesmo assim, as portas continuam abertas. Porque liberdade sem responsabilidade vira imprudência, porém ciência sem liberdade vira dogma e nós, que somos de direita, não precisamos escolher entre a verdade e a liberdade. Precisamos defender as duas.

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